O cuidado informal vale 5,9 mil milhões de euros em Portugal
Em Portugal, grande parte do cuidado às pessoas idosas continua a acontecer dentro de casa. As famílias asseguram uma parte significativa desse apoio, através de cuidadores informais cujo contributo é essencial para o funcionamento do sistema de cuidados.
Esse trabalho tem também um valor económico. O cuidado informal em Portugal representa cerca de5,9 mil milhões de euros, um contributo significativo que permanece parcialmente invisível nas estatísticas tradicionais.
Ao mesmo tempo, existe uma economia formal dos cuidados. O sector dos cuidados formais representa cerca de 0,9% do valor acrescentado bruto da economia portuguesa e mais de 1,6% das remunerações, evidenciando o seu peso económico e laboral.
A procura de cuidados deverá continuar a aumentar. O envelhecimento da população está associado a um crescimento do número de pessoas muito idosas e com necessidades mais complexas. A longevidade, a multimorbilidade e as situações de dependência colocam uma pressão crescente sobre o sistema de cuidados.
Ao mesmo tempo, a capacidade das famílias para assegurar esses cuidados está a mudar. A redução do tamanho das famílias e o aumento da participação no mercado de trabalho diminuem a disponibilidade potencial para prestar cuidados informais. A base tradicional sobre a qual assenta grande parte do cuidado está, assim, a sofrer uma transformação.
Os cuidadores informais enfrentam, por sua vez, níveis elevados de desgaste e dificuldades de conciliação com a vida profissional. A sobrecarga física e emocional torna necessário reforçar mecanismos de apoio mais acessíveis e eficazes.
Também o sector formal enfrenta desafios. Grande parte dos cuidados formais é assegurada por instituições do sector social solidário, que funcionam como uma base fundamental do sistema. Estas entidades enfrentam dificuldades financeiras significativas quando, segundo o estudo, cerca de 37% do financiamento público regressa ao Estado sob a forma de impostos e contribuições, o que equivale a cerca de 1 euro por cada 2,7 euros transferidos.
A articulação entre saúde e apoio social é outra das áreas identificadas como prioritárias. Os serviços nem sempre estão suficientemente ligados, o que pode dificultar respostas integradas às necessidades das pessoas idosas.
A resposta terá de envolver, por isso, uma rede alargada. Autarquias, associações e comunidades locais desempenham um papel importante no apoio às pessoas idosas e na construção de redes de proximidade. O cuidado não depende de um único ator: exige um verdadeiro ecossistema.
Entre as prioridades identificadas para o futuro estão o reforço do apoio domiciliário, a integração dos serviços e a valorização e apoio aos cuidadores. São mudanças necessárias para responder a uma procura crescente e para tornar o sistema de cuidados mais sustentável.
O cuidado é, assim, simultaneamente uma questão social, económica e de organização da sociedade. Numa sociedade longeva, reconhecer o valor de quem cuida e construir respostas sustentáveis será uma das condições para garantir qualidade de vida às pessoas que envelhecem e às suas famílias.
Este texto baseia-se nas conclusões do estudo Economia do Cuidado das Pessoas Idosas em Portugal, desenvolvido para o Conselho Económico e Social.